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ODAIR VARELA, escritor cabo-verdiano, autor de “A fita cor-de-rosa”, obra traduzida em holandês, fala do seu processo criativo e da literatura para crianças em Cabo Verde.
Uni’Letras - Por quê escrever para os mais pequenos?
Odair Varela - Aquilo que começou como um cair de paraquedas no mundo da produção de conteúdos para a infância agora é abraçado como uma parte da minha pessoa. Encontrei na contação de estórias para a infância uma forma de compartilhar a viagem ao fantástico com um sabor crioulo. Escrevo também para representar as nossas crianças na literatura para a infância. Geralmente escrevemos para as nossas crianças, mas quem protagoniza a estória são animais (Ti Lobo, Xibinho, Blimundo…) ou então adultos ensinado a criança. Contudo, quando decidi investir na coleção “Tufas, Princesa Crioula” pretendi trazer uma menina (Tufas) como a personagem principal, coadjuvado pelo seu amigo (Xipiti), um rapaz colecionador de pedras preciosas sem valor, para juntos desenvolverem as aventuras da série.
Escrevo para os mais pequenos porque sei que temos um público em Cabo Verde (cerca de 178 mil pessoas dos zero aos 17 anos) que precisamos de alcançar com a nossa produção para a infância.
Uni’Letras - De onde lhe vêm as ideias?
Odair Varela - As ideias são coisas tão esquisitas que muitas vezes pensar sobre as suas origens tende a provocar novas ideias. Dito isto, a observação dos elementos da vida e um olhar que lhes dê novas funcionalidades, a vontade de recontar e dar forma estética a coisas básicas, tudo isso numa procura da abstração do fantástico que caracteriza a imaginação da criança provavelmente será de onde me vêm as ideias.
Uni’Letras - Tem alguma rotina fixa quando escreve? (um horário, um ritual, uma música ou um tipo de música que gosta de ouvir, um lugar especial, um horário fixo...)
Odair Varela - Não tenho uma rotina de escrita. Sou muito irregular em termos de horários e música depende do estado de espírito momentâneo. Contudo, com um pouco mais de experiência na produção, agora já trabalho com um esquema do livro completo, mas isto é por causa do meu olhar como editor, não só como autor. Como editor preciso de visualizar o número de páginas e de ilustrações e as suas posições no livro.
Uni’Letras - Quantas vezes revê os seus textos antes de os dar como finalizados?
Odair Varela - A revisão é algo constante, porém, chega uma altura em que temos que deixar o livro seguir a sua vida. Tenho por hábito solicitar revisão de vários amigos com muito mais conhecimentos e experiências. Assim testo a estória e recebo muitas sugestões e recomendações (algumas são absorvidas e outras nem por isso).
Uni’Letras - Dá os seus textos a ler a alguém? Pede sugestões?
Odair Varela - Desde o início das publicações em papel (2013) que peço revisão a várias pessoas para poder encontrar detalhes que me escaparam (tanto ao nível da língua portuguesa como na própria estória, quando me apontam a necessidade de desenvolver melhor uma parte ou caraterística de uma personagem). A revisão é um processo normal e altamente recomendada na edição de livros e pretendo continuar a contar com o apoio e talento dos meus amigos para reverem os meus futuros livros.
Uni’Letras - O que representou para si receber uma menção honrosa no concurso Lusófono da Trofa - literatura infantil?
Odair Varela - Foi bom, mas queria ter ganho o prémio pecuniário para poder ter lançado o meu livro na altura com mais exemplares. Isso é que tinha sido bom, tendo em conta o fraco investimento nos livros para a infância em Cabo Verde. Provavelmente a vantagem será poder usar essa menção honrosa no concurso Lusófono da Trofa - literatura infantil na promoção do meu livro.
Uni’Letras - As obras "Tufas, a Princesa Crioula - aprendendo com as palavras" e "Tufas, a Princesa Crioula - a caixa das desculpas" têm versão bilingue em língua cabo-verdiana e inglês. Por quê em inglês? Como foi a recetividade à obra nos Estados Unidos?
Odair Varela - A coleção “Tufas, Princesa Crioula” tem versões em português, língua cabo-verdiana, inglesa, francesa, espanhola e italiana. O objetivo é investir na publicação online e tentar entrar noutros mercados nestas línguas. Aumentando as versões disponíveis, pretendo aumentar o meu raio de ação e procurar despertar a atenção de uma editora maior de alcance internacional.
Contudo, quando inicialmente tive que traduzir para inglês foi porque as pessoas nas comunidades cabo-verdianas emigradas apontaram-me que as nossas crianças não entendem o português e apenas falam o crioulo. Para ler teria que ser em inglês e foi por isso que optei pela tradução para alcançar este público-alvo. Na Holanda, por exemplo, para além de traduzir a série “Tufas, Princesa Crioula” para a língua inglesa, já tenho a tradução para holandês do meu primeiro livro “A fita cor-de-rosa”. Essa é também uma forma de dar a conhecer a minha obra num mercado supercompetitivo e de alta qualidade como é a produção gráfica e editorial na Holanda.
Uni’Letras - Como foi a recetividade à obra nos Estados Unidos?
Odair Varela -A experiência nos Estados Unidos da América foi altamente gratificante. Fui lá por duas vezes e já fiz 16 apresentações por lá. O carinho que encontrei para com o projeto “Tufas, Princesa Crioula” é deveras motivador. Isso mostra também que há um interesse da nossa comunidade (sem esquecer o grande apoio da comunidade portuguesa que lá encontrei) nas obras para a infância com esta representatividade. O difícil é conseguir alcançar este público, mas uma vez lá chegado a minha experiência tem sido altamente positiva.
Uni’Letras - Que oportunidades e/ou dificuldades enfrenta um escritor no contexto cultural e editorial cabo-verdiano?
Odair Varela – É necessário mais investimento na produção de conteúdos para a infância. As edições de autor têm sido uma das formas de driblar a não aposta das editoras privadas e o não investimento público. Uma das dificuldades é encontrar ilustrador com sensibilidade para a infância e, após imprimir, a sua distribuição pelas ilhas.
Mas há uma grande oportunidade na produção para a infância se atermos ao facto de que no nosso país, recentemente estimavam-se cerca de 525 mil pessoas residentes. Destes, o número de jovens (pessoas entre os zero a 14 anos de idade) era de 155 mil pessoas. Se os consideramos como o público-alvo das publicações infantis então teremos uma boa oportunidade de negócio.
Uni’Letras - Tem projetos para outras obras?
Odair Varela – Neste momento estou a trabalhar no terceiro livro da série “Tufas, Princesa Crioula”. Até que o livro já está pronto, com ilustrações e tudo, contudo não consegui encontrar o financiamento para a sua publicação. Também estou a trabalhar em uma animação 3D da adaptação do meu primeiro livro “A fita cor-de-rosa”. Já estamos na fase de produção avançada.
Uni’Letras - Quer deixar uma mensagem para os mais jovens?
Odair Varela – Leiam tudo o que puderem agora.