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Altura de férias, mas parece que não está fácil sair do nosso cantinho. Assim, gostaria de convidar os nossos leitores para uma visita por dentro de uma Berlim onde se vive, não só se passeia. A cidade que teima em ser irreverente, enquanto se tenta encontrar com as suas raízes e com a multiplicidade cultural, que parece cada vez mais moldar a atmosfera da cidade.
Berlim deixou cair o muro não há muito tempo. Foi aqui perto de mim, na ponte Bosenbrüke onde a primeira fronteira se abriu com a queda do muro a 9 de Novembro de 1989. A primeira fronteira entre a cidade livre e a cidade que se mantinha sob o poder soviético estava aberta, as pessoas voltavam a ver-se. Mas conta a história que a parte sul de Berlim sempre foi conhecida pelas sua atmosfera boêmia. Desde os anos 20, que a vida nocturna mistifica esta cidade, que continua a tentar encontrar a sua identidade no meio de tantos bairros, que lhe define a história, que lhe mantém o muro, que não deixa acalmar este frenesim em busca de uma individualidade que lhes agora lhes é possível.
A história acompanha cada local, na Alemanha a separação do país é bem visível, especialmente para quem teve a oportunidade de viver tanto no este, como no oeste desta terra fragmentada, mas que mesmo assim se mantém no seu poderio europeu e económico.
Berlim está na moda, na verdade parece que sempre esteve na moda. Não foi à toa que David Bowie teve suas epifanias por lá, onde viveu entre 1976 e 1979 – e foi a pensar em Berlim que ele cantou alguns dos seus êxitos.
Uma cidade fragmentada em bezirks (bairros), onde habitam pessoas muito diferentes. Na gastronomia as coisas não são diferentes. O fast food berlinense é na verdade as pommes frites (batatas fritas), currywurst (uma salsicha com ketchup e um pó de caril para dar o paladar exótico) e kebab. Resultado da migração de gente do mundo todo. Falar de comida berlinense é falar de comida tailandesa, vietnamita, turca e até americana! Falar de comida berlinense é falar de uma forte cultura vegetariana e vegana, de festivais de food truck gourmet durante o verão e brunch aos domingos.
Vamos então passear-nos por esta cidade tão peculiar. Comecemos por uma breve descrição entre norte e sul. No norte, as pessoas são consideradas mais recatadas, tudo mais organizado, onde nada se passa, onde apenas se habita e se cresce velho. Cada vez mais para norte, onde a natureza se mostra com as suas florestas e lagos, a cidade envelhece e torna-se mais alemã, mais cultural do país onde está inserida.
Uma ida à zona sul desvenda uma cidade bem diferente, o céu abre, os inúmeros canais deixam passar uma brisa e a panóplia de gente que habita o sul dá vida e alegria a uma parte que deixa para trás a rigidez alemã e se mostra numa mistura de raças, de gente de e comportamentos considerados mais irreverentes. Onde Berlim é aquela Berlim. Onde crescem os bairros de imigrantes, onde os que vieram, de novo, se sentem mais em casa. Fala-se inglês, os bairros tomam contornos árabes, onde a sua população é a maioria.
Berlim por entre o Ocidente e o Oriente
Uma ida ao bairro de Neukölln é estar em casa em terras de quem aqui chegou numa busca por exílio. Este bairro, juntamente com Kreuzberg são bairros, que estão a ser desenvolvidos, restaurados, também, eles anteriormente contam histórias de vidas nocturnas que levaram ma drogas e a dependência do álcool. Agora mostram-se como bairros jovens, com uma multiplicidade étnica, que nos afaga o lado romântico. Para quem aqui vive, como em tudo, depende do estilo de vida, na verdade, depende mais de onde se encontra casa cada vez mais escassas e encarecidas, mas muitos querem viver a sul.
Kreuzberg e Neukölln mistura-se em cultura e geografia. Unidos pelo canal Landwehrkanal, nestes bairros visitamos o que era antes a parte ocidental e mais marginalizada da cidade. Kreuzberg, sendo uma região mais a leste do lado oriental e com três dos seus lados limitados pelo Muro de Berlim, comecou a ser procurado por imigrantes, porque la se vivia mais barto. Nos dias que correm foi redescoberto por artistas, e tornou-se o exemplo de uma cidade em constante transformação, reduto de punks, artistas, homossexuais e morada para a maioria dos povos oriundos do Médio Oriente e Turquia. Sem dúvida, aquele lugar boêmio e de imigrantes, a conservar a história. Barato, já não é o melhor adjectivo para esta área, que agora se torna trendy e onde se assiste uma gentrificação, que avança a passos largos. Para chegar ao seu vizinho Neukölln, podemos passear-nos pelas margens do canal e damos de caras com o antigo aeroporto, Tempelhof. Hoje transformado num parque onde o céu se abre e o espaço é imenso, onde a noção de cidade muda com a sua noção de paisagem e sem fim. Abrigo também, em forma de casa fabricadas, para receber a vaga de refugiados - agora ao abandono. Localização, daquilo que aqui se chama de forma familiar, à rua dos árabes, dando-lhe características de uma espécie de Arab Town.
Ainda na parte ocidental, mas a norte da cidade, temos Wedding. Aqui está localizada a Bernauer Straße, principal cenário do drama da construção do muro de Berlim por ter protagonizado as primeiras tentativas de fuga para a Alemanha ocidental. E aqui também se encontra a ponte Bosenbrücke, a tal fronteira a ser aberta. Na cidade de hoje, é um bairro mais calmo, residencial, mas que não foge à regra e mantém a multiculturalidade. Construída à volta de pequenos comércios turcos e árabes e com arquitetura indecifrável de tão misturada, nesta parte da cidade dizem que e bom para começar em Berlim, para viver fora do circuito turístico.
Bem diferentes, outros bezirks se apresentam, ainda naquilo que seria uma Berlim ocidental. Moabit, região mais residencial, onde mudam os sotaques e aumenta a dificuldade em se comunicar em inglês no comércio local. Schöeneberg, que foi a morada de David Bowie nos anos 1970, vejam só. É também onde tremulam mais bandeiras LGBTQ em toda a Berlim. A curiosidade neste bairro é que os moradores misturam harmoniosamente vitrines de sex-shops, noites gays, lojas de roupas vintage, tradicionais feirinhas de alimentos sob a sombra das árvores e prédios do pré-guerra e arquitetura moderna dos anos 1950 e 60. E para acabar a jornada na Berlim Ocidental temos o bairro que aparece na televisão, Charlottenburg. Símbolo mor do ocidentalismo, da Berlim capitalista. Palco da euforia dos recém-saídos da Berlim oriental. Entramos no antigo Reino da Prússia. Hoje em dia, é morada para os abastados de leste.
Na que seria a parte Oriental, também eles de características únicas, encontramos os bairros de Mitte, que podemos chamar o coração da cidade, onde situam os pontos turísticos mais visitados. Apesar de ser o mais trivial, uma curta visita pode ser surpreendente - o Portão de Brandemburgo, o Parlamento, o Museu ilha, a Potsdamer Platz mostrando uma Berlim super moderna, a contrastar com os bairros históricos, como o Scheunenviertel, antigo bairro judeu, um dos bairros mais antigos da cidade, e que até hoje abriga uma comunidade judaica. Apesar da modernidade, os prédios de tijolinhos, herança da Alemanha Oriental delineiam-lhe o cenário.
O bairro de Prenzlauer Berg afamado e querido pelos berlinenses alemães guarda ainda os edifícios dos anos 1880, que milagrosamente foram poupados na guerra e foram sendo restaurados e agora são um dos metros quadrados mais valorizados da cidade. De moradia de operários e estudantes da Berlim comunista vê-se agora palco de um canto procurado por jovens famílias alemãs, que o perspectivam como um bairro mais do chique e hypster. Mas, num mesmo bairro tudo muda. Ao atravessar a ponte ferroviária suspensa de Schönhauser Allee, de um cenário idílico passamos para clima mais jovial, onde as paredes se enchem de graffiti, música e manifestações artísticas.
Friedrichshain, separada de Kreuzberg pela ponte Oberbaumbrücke, guarda um dos cartões postais mais populares da cidade - é ali, às margens do rio Spree que fica o East side Gallery, trecho do muro que virou galeria de arte de renomados grafiteiros de todo o mundo. Não é um bairro lindo, mas é sem dúvida charmoso, com aquela ponte que imponha antes uma fronteira vista da janela do comboio.
Em Alt-Treptow e terminado o passeio pela parte outrora oriental, encontramos uma espécie de ilha, que flutua no meio de um rio, cujo acesso é feito por armazéns de antigas docas - Badeschiff, a famosa piscina que anima os verões berlinenses. Ainda no canal Landwehrkanal, barzinhos e espaços de entretenimento, com terraços de madeira avançam sobre a águas do canal e aí, se vê aquele charme da Berlim underground.
E se fizermos todas estas voltas de carro, a rádio, mostra quem era aquela cidade e sob que estava o domínio. Rádios em francês, inglês e russo. Também em turco, mas neste caso, a revelar a emigração e a proximidade entre as duas nações. De referir, que a comunidade turca e a segunda população maioritária na Alemanha, estão bem presentes e bem enraizados. De referir que é estimado que o maior número de turcos fora da Turquia está na Alemanha, mais de 200.000 migrantes.
Isto colore a cidade e faz com que ela fique mais interessante ainda. As influências estão claras na gastronomia, nas feiras típicas, nos bairros com placas escritas em turco, na descontracção meio parecida com a nossa nas feiras-livres, nas roupas típicas das mulheres e nos narguiles soltando vapor nos bairros povoados por turcos. Berlim não seria tão Berlim, sem a Turquia que está impregnada nela.
Aqueles a quem eles chama de “new comers”, para aliviar a palavra refugiado, concentram-se e também eles moldam a cidade. Estes povos trazem cor e faz com que ela fique mais interessante. As influências estão claras na gastronomia, nas feiras típicas, nos bairros com placas escritas em árabe e turco, na descontração meio parecida com a portuguesa nas feira, os abraços, o falar alto e o sorriso que esboçam quando vem um amigo. Berlim não seria tão Berlim, sem a Turquia e o Médio Oriente que cada vez mais se impregna nela.
Esta gente que veio e aqui tem que ficar, encontra em Berlim a sonhada liberdade que não tinha nos seus países, e na a verdade é que desde que este movimento migratório aconteceu a economia alemã cresceu bastante.
Numa Berlim onde tudo se diz possível, onde todos podem ser o que quiserem, procura-se identidade, renasce-se de uma história que a geração de 80 viveu. São os pais de agora, estes jovens adultos, que viveram em separação e agora renascem numa Berlim unida, porém cada vez mais fragmentada por esta necessidade... de a moldar. Ou será que se deixará as diferentes culturas aprimorar e fazer de Berlim, cada vez mais, uma cidade internacional. Talvez seja essa a sua identidade. Uma “ilha” de culturas, onde pessoas e reacções são diferentes, onde tudo acontece num tempo diferente, porque e Berlim, é Berlim. E Berlim, como dizem, nao e Alemanha.
Talvez não se consiga comparar Berlim a uma outra capital europeia. Esta cidade está longe de ser perfeita, romântica e mais longe ainda de ter uma arquitetura de causar suspiros. Uma paisagem cinzenta e por vezes feia e seja a uma primeira vista, mas Berlim é, talvez tudo isto, feia, bonita, feliz e deprimente. Uma verdadeira cidade bipolar.
De uma excitação de quando o sol brilha, para um depressao anunciada de um inverno longo com um evento de gelar os ossos. Berlim não se entrega de cara nem é simples de decifrar. Berlim é espalhada.Não se tem percepção a primeira vista, uma primeira vista por berlim retém a diversidade arquitectónica, a multiculturalidade apresentada em cada distrito. Mas Berlim está, sem dúvida dividida entre um parte Oriental e Ocidental.
Eu nunca fui muito boa nestas coisas de coordenadas e mapas, mas talvez não seja preciso, para acompanhar esta diferença, que está bem presente em mentalidades, estilos de vida e arquitectura. Para isso basta observar e passear-se um pouco pela cidade.