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Este discurso foi preparado para a homenagem prestada a Almeida Garrett, no dia 23 de Novembro de 2021, junto do busto do “Glorioso Escritor”, em Saint-Gilles. Infelizmente, por motivos profissionais, o autor não pôde estar presente. Na homenagem, estiveram presentes o Secretário-Geral da UGT, Carlos Silva, o Embaixador de Portugal na Bélgica, Rui Tereno, e Adelino Tito de Morais, que teceram breves palavras em honra do homenageado.
Há poucas semanas, tive a oportunidade de referir a óptima relação que Bruxelas tem com escritores de língua estrangeira. No caso concreto desta área linguística da Região Bruxelas-Capital, entenda-se ‘língua estrangeira’ como qualquer língua que não seja nem francês, nem flamengo. De facto, numa homenagem a Fernando Pessoa, no passado dia 5 de Outubro, na Praça Flagey, recordei o exemplo do próprio Fernando Pessoa, não só com a escultura de Irene Vilar, ponto de encontro desse momento simbólico, mas também com os dois bancos em pedra que ficam do outro lado da Rua de la Brasserie, em frente à bomba de gasolina, com azulejos alusivos ao poeta. Lembrei então que bastaria apanhar o eléctrico 81, na direcção de Saint-Gilles, e irmos atentos ao lado esquerdo do veículo, para vermos o busto de Garrett que aqui se encontra, da autoria de Rodrigues Castro. Terminei esse intróito, falando de um autor de outra língua estrangeira que não o português, nascido em Ixelles: o maravilhoso escritor argentino Julio Cortázar (enormísimo cronopio), com um busto defronte da casa natal.
A presença de Garrett em Bruxelas pode e deve ter uma leitura diplomática e essa leitura tem cabido ao longo dos tempos a historiadores, biógrafos e diplomatas – leitura dedicada quer ao diplomata Garrett, por exemplo, aqui em Bruxelas, quer igualmente a outro diplomata, alhures, também ele figura maior da literatura portuguesa, Eça de Queiroz. Exemplo dessa leitura diplomática de Garrett é Viagens noutras terras : Almeida Garrett, diplomata em Bruxelas (1834 – 1836), de Duarte Bué Alves, A presença de Garrett em Bruxelas foi também o tema de leituras diferentes e curiosas, sendo provavelmente a mais conhecida a de Amadeu Lopes Sabino, com A Lua de Bruxelas, interpretação ficcionada do período em que Garrett aqui esteve em posto como cônsul-geral e encarregado de negócios na Bélgica, entre 1834 e 1836.
As peripécias biográficas e políticas de Garrett estão documentadas e permitem perceber que esta estada em Bruxelas conduziu a uma reviravolta na sua vida extraliterária. Efectivamente, de funcionário sucessivamente abandonado (ou, melhor, frequentemente deixado ao abandono) pelos Governos cartistas, passou a figura de proa do Setembrismo – que chega ao poder justamente em 1836 – e devemos à acção de Garrett, por exemplo, o Teatro D. Maria II ou o Conservatório Nacional. Quanto à vida pessoal de Garrett, embora eu próprio concorde com a escola que defende a necessidade de se contextualizar o autor não só na época, mas também nas circunstâncias pessoais (e que, naturalmente, condena quem se limita a perorar sobre a obra meramente sob a duvidosa perspectiva do leitor individual), há outros textos onde essas referências ao Garrett íntimo devem surgir e outros espaços onde esses aspectos devem ser discutidos: isso não acontecerá nem aqui, nem agora.
Literariamente, a passagem de Garrett por Bruxelas é fulcral. Há necessariamente um Garrett posterior a Bruxelas. Um Garrett melhor. Basta ler a lista das obras de Garrett por ordem cronológica, para se perceber que são posteriores a 1836 as três que lhe dão o fulgor singular a que se refere Ofélia Paiva Monteiro, o fulgor que o isola como figura proeminente do Romantismo português (Frei Luís de Sousa, Viagens na minha Terra, Folhas Caídas). Ora, é em Bruxelas e não noutro lado qualquer que Garrett é impregnado pela leitura de Goethe, Herder e Schiller.
Início de citação:
«Nos ultimos dias de Junho de 1834 partiu o Sr. Garrett para Bruxellas, na qualidade de encarregado de negocios de S.M.F. junto d’el-rei Leopoldo. Nos principios de Julho estava na capital do novo reino da Belgica, aonde, pelo pouco trabalho oficial, que tinha a satisfazer, facilmente pôde dar-se a adquirir, o que ha muito desejava, o conhecimento da lingua e da litteratura allemã, que até entam não podéra cultivar.
O ardor com que se deu a este estudo, fez que em breve podesse ousar acommeter as maiores dificuldades delle, lendo a par de Herder, e de Schiller, as mais difficeis composições de Goêthe. E o gosto, que tomou, principalmente por este ultimo escritor, influiu de tal sorte nas suas opiniões litterarias, no seu estilo, em tudo o que se pode chamar – o genero e modo de escrever de um author – que as suas composições posteriores teem todas um cunho differente, ao menos em nossa opinião, um caracter de maior transcendencia e profundidade, pensamento mais vigoroso, estilo mais proprio e feito, mais verdadeiramente original».
Quem escreveu estas linhas foi, nem mais, nem menos, o próprio Garrett, na sua Autobiografia, de 1844.
Termino esta pequena alocução com duas notas que muito têm a ver com Garrett, mas nada com Bruxelas:
- Tereis reparado em algumas curiosidades grafémicas do excerto apresentado da Autobiografia. Faltando-lhes argumentos científicos, alguns defensores do Acordo Ortográfico de 1990 costumam acudir à autoridade de escritores. Por exemplo, recorrem a Garrett, que, no prefácio do poema Camões, de 1825 (ou seja, de há quase 200 anos), escreveu o seguinte:
«Sôbre orthographia (que é força cada um fazer a sua entre nós, porque a não temos) direi só que segui sempre a etymologia em razão composta com a pronúncia ; que accentos, só os puz onde sem elles a palavra se confundiria com outra ; e que de boamente seguirei qualquer methodo mais acertado, apenas haja algum geral e racionavel em Portuguez : o que tam facil e simples sería se a nossa academia e govêrno em tam importante coisa se empenhassem».
Ora, gostaria imenso de ouvir a opinião dessas pessoas sobre o que diria Garrett acerca das várias aberrações ortográficas causadas pelo AO90, entre as quais a que surge em dezenas de artigos e notas biográficas com grafia AO90, com o Baptista do nosso João Baptista da Silva Leitão de Almeida Garrett despojado do ‘p’, ou seja, transformado em *Batista. Na base XXI do AO90, pode ler-se: «para ressalva de direitos, cada qual poderá manter a escrita que, por costume ou registo legal, adote [sic] na assinatura do seu nome». Começando no pê do Baptista, qualquer dia, também tiram um dos tês ao Garrett. Por falar nos tês de Garrett, lembremos a declamação do Antero do Um Génio que era um Santo, de Eça de Queiroz,
«os transcendentes recantos
Aonde o bom Deus se mete,
Sem fazer caso dos Santos
A conversar com Garrett!»
- A segunda nota diz respeito à nossa terra natal, minha e de Garrett. No Porto, Garrett é homenageado na estátua que se encontra em frente à Câmara Municipal do Porto (CMP), na Praça de Almeida Garrett (para quem não souber, a da Estação de S. Bento e cuja placa evoca o Glorioso Escritor) e, mais recentemente (há 20 anos), nos jardins do Palácio Cristal, passámos a ter a Biblioteca Municipal Almeida Garrett. Esta é a fachada. Depois, temos a casa onde ele nasceu, a qual, em vez de ter sido atempadamente recuperada, embelezada, valorizada, foi sendo esquecida, desprezada, deixada ao abandono, durante decénios, tendo ardido em finais de Abril de 2019, precisamente na semana em que a CMP fez uma proposta de compra, para aí instalar um pólo do Museu do Liberalismo. [[1]] Ardeu tudo da casa, menos, ironicamente, a fachada. Ainda por cima, como podemos ler no Público de há três dias, «Desde Abril de 2019, nada foi feito para recuperar esta peça que faz parte do património histórico da cidade e do país» [[2]]. A fachada continua.
[1] https://www.publico.pt/2019/04/27/local/noticia/incendio-centro-porto-atinge-casa-onde-viveu-almeida-garrett-1870681
[2] https://www.publico.pt/2021/11/20/local/noticia/casa-onde-nasceu-almeida-garrett-continua-destruida-dois-anos-apos-incendio-1985673
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