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Hoje é dia de exames em Antuérpia. Levanto-me cedo. Dia cinzento. Vá lá que não chove. Apanho o autocarro para a estação central. A motorista é um mulherão forte que vai quase tão chateada como eu. Digo “bonjour” à entrada, mas não me responde. Arranca e trava, trava e acelera grazinando qualquer coisa incompreensível a cada paragem. O autocarro vai cheio de gente de todos os lugares. Gosto especialmente desta misturada de falares e de trajares. Há o clássico botas, com kispo, gorro e cachecol; há o stiletto com saia travada e mochila desportiva; há a capulana colorida; há o véu negro profundo.
A motorista trava e acelera, arranca e trava e todos se agitam num solavanco de agitações matinais. Um cacho de caracóis loiros com olhitos azuis pisa-me os pés e sorri. Digo-lhe “olá” (eu ensino português, é bom começar a aprender de pequenino, o português é uma língua de futuro…) e responde-me “olá!”. Dois anos depois, continuo a surpreender-me com a velocidade a que esta malta aprende línguas, penso. Bom, talvez não seja tão rápido assim. Afinal, a mãe é portuguesa, fala com ele em português!
Por causa das obras, mudo no Luxembourg. Quase deserto. Ainda é demasiado cedo. À entrada da estação central, há vários mendigos deitados no chão, em cima de cartões, enrolados em mantas. As imagens não são diferentes das que vemos noutros lugares e as reações são também indiferentes.
Sigo para Antuérpia. Como companhia, “O Homem domesticado” de Nuno Gomes Garcia. “E se a sobrevivência da humanidade dependesse da submissão do homem à mulher?”, pergunta o autor. Divirto-me e enfureço-me à vez com esta leitura, embora a segunda mais vezes do que a primeira. Mais dez minutos a pé e estou na universidade. Exames de Português a alunos do 2º ano. Resultados: 19, 18, 17, 18, 17, 19… Extraordinário o interesse, a dedicação e o empenho com que estudam português: “porque é uma língua bonita”, porque gostam da cultura, porque querem saber mais sobre a “fascinante história de Portugal”!
Depois, reunião com os colegas de Departamento. Somos seis professores a ensinar português na universidade. Preparamos um encontro literário a realizar em março. Há muita gente que quer aprender português em Antuérpia, dizem-me. Combinamos convidar os alunos e os ex-alunos, amigos que vão de férias a Portugal, familiares que querem comprar casa em Portugal, conhecidos que gostam de Portugal. Descubro que uma das colegas é portuguesa. Vive há muitos anos na Bélgica, trabalha em Antuérpia, é casada com um dinamarquês, mas continua a sentir Portugal sempre como o seu lugar.
Regresso a Bruxelas, mesmo trajeto, mas agora já chove! Na estação central, entro no autocarro com um grupo ruidoso, que vem a rir e a falar alto. Dizem “olá” e perguntam-me, em inglês, se o autocarro passa na Flagey. Sim, sim, respondo-lhes em português. Novas gargalhadas, pois claro, há um português em cada esquina, em qualquer parte do mundo. Vão animados e contam-me que procuram um restaurante português onde ouviram dizer que se come muito bem. É natural, é uma zona onde vivem muitos portugueses. Pois, não conheço, mas é verdade que, depois de algum tempo, há uma certa saudade de sabores sinceros e conhecidos. Que não, que não, não é ainda saudade, chegaram de manhã cedo, regressam a Portugal no dia seguinte.
É mesmo porque não há como a nossa comidinha. Muito bem, o restaurante não deve ser longe, eu sigo ainda mais um pouco. Não mora aqui? Indignam-se! Não, não, é um pouco longe do meu trabalho, desculpo-me, envergonhada por esta traição à pátria! Chego finalmente a casa. Vou fazer cozido à portuguesa para o jantar!