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Era Inverno, Novembro ou Dezembro de 2012. Como todos os dias pela manhã, às 7:30 sou acordado pelo meu fiel amigo Schwartz.
O Schwartz é um Labrador preto, actualmente com cerca de dois anos e pesa à volta de 45 quilos. Quase não preciso de despertador, porque mais cinco, menos cinco minutos, ele já está com a trela na boca junto à cama à espera de o levar ao primeiro passeio matinal.
Tinha chovido e o dia estava nublado e ainda escuro. A chuva ameaçava novamente. Em passo acelerado lá fomos em direcção à parte traseira do prédio, onde existe um grande espaço verde com árvores, onde habitualmente brincam cães e crianças.
Ao contornar o quarteirão, ao longe vejo algo debaixo das varandas do prédio, que não deu para saber o que era. Aproximei-me e vi que era uma pessoa. Estava de costas voltadas e não deu para saber se era novo ou idoso. Estava enrolado em várias peças de roupa e plásticos. Não o quis incomodar, não falei com ele.
Prossegui passeio habitual com o meu amigo de quatro patas e de regresso, vi que o vulto continuava ainda imóvel. Pensei que fosse algum toxico-dependente que tivesse morrido de overdose, ou alguém doente que poderia precisar de ajuda, por isso, aproximei-me e dei bom-dia e perguntei-lhe se estava tudo bem.
Imediatamente obtive resposta - “sim, obrigado, não se preocupe, eu estou bem”.
Fiquei mais descansado e voltei para casa.
O segundo passeio do cão é sempre depois do almoço, mas indivíduo preocupava-me
porque nesta zona, por enquanto ainda não é habitual ver-se pessoas sem-abrigo, por isso desta vez, fui eu que convidei o cão para voltar à rua mais cedo. Era cerca do meio-dia.
Percorri o mesmo percurso para ver se ele ainda lá estava e ao dobrar a esquina vejo que ele ainda lá se encontra na mesma posição. Ganhei coragem, pois poderia ser mal recebido por o estar a chatear. Aproximei-me e perguntei-lhe se estava doente ou precisava de alguma coisa. O vulto mexeu-se e destapou parte da cara. Mal lhe vi um olho e disse-me exactamente o que tinha dito: “obrigado, não se preocupe comigo, eu estou bem”. Insisti e a resposta foi a mesma, num tom sempre amigável como se não quisesse incomodar disse - “eu não preciso de nada, obrigado”.
Olhei à volta para ver se ele tinha qualquer saco com alimentos ou bebidas, mas só vi um plástico azul e algumas peças de roupa e nada, sacos, bebida ou alimentos.
Como era hora de almoço pedi à esposa que me preparasse um saco com comida e bebida. Com o saco na mão, lá fui mais uma vez junto do vulto mas desta vez não tentei meter conversa, porque notava-se que ele não queria falar. Disse-lhe apenas que deixava ali alguma coisa para comer se ele quisesse. Ele continuou com a cara meio-tapada por um casaco dizendo mais uma vez: “Obrigado, não era preciso incomodar-se. Deus lhe agradeça”.
Despedi-me dele e todos os dias quando ali passo, lembro-me daquele vulto que não cheguei sequer a ver se era velho, novo, homem ou mulher.
Há cerca de dois meses, num passeio rotineiro ao fim da tarde, sempre com o meu amigo inseparável, caminhávamos pelo passeio com direcção a sul.
Do outro lado da rua, no passeio contrário vinha um senhor com muito bom aspecto, tinha cerca de 40 - 45 anos, vestia fato cinzento, usava gravata e tinha o cabelo e barba bem tratados, transportava uma pasta diplomática tipo computador.
Atravessou a rua e reparei que ele nos olhava estranhamente. Pensei que fosse um amante de cães, mas depois vi que ele estava mais interessado em falar comigo.
Pensei: mau, mau... lá vem mais um vendedor de telecomunicações ou então algum membro de alguma seita religiosa”.
Com um olhar fixo, seguro e sorridente, ele perguntou-me:
Lembra-se de mim?
Pensei um bocado e disse-lhe que não, que nunca o tinha visto, mas que poderia estar enganado, pois a “PDI” já não ajuda...
Riu-se, deu-me uma palmada amigável no ombro e perguntou-me:
“Você lembra-se, de no ano passado naquele prédio ali à frente, debaixo do terraço, ter estado a falar com um sem-abrigo várias vezes e de lhe ter deixado um saco com comida? “
Disse-lhe logo que sim, que me lembrava muito bem.
De imediato, mas desta vez em tom mais sério disse-me: era eu.
Fiquei sem palavras. Tive de voltar a perguntar e ele lá me foi dizendo, que teve “problemas graves na vida”, que o obrigaram a viver na rua algum tempo, mas que actualmente tem casa, vive com a família e tem um emprego e vida estabilizada.
Referiu que tinha passado ali vezes sem conta para me agradecer, porque numa rua movimentada como aquela, “você foi o único que se preocupou comigo, pois eu estva sem dinheiro, esfomeado e com vergonha”.
Sem mais palavras e tal como eu, com um brilhozinho nos olhos, deu-me um abraço apressado e já em andamento sem olhar para traz, disse mais uma vez: “obrigado meu amigo, nunca me esquecerei de si”.
É a vida...