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Palmilhando o Jardim do Paço Episcopal, cruzei‑me com ranchos de excursionistas. Já no vizinho Museu Francisco Tavares Proença Júnior, instalado na antiga residência dos bispos, fiquei com a impressão de ter o museu todo para mim, de ser o seu único visitante. Não me erijo em árbitro do gosto de outrem, mas esta é a realidade: o turismo é, em grande medida, andança que visa a selfie e a fotografia fácil, e não deixa tempo para o que exija estudo e esforço mental. Em regra, quem vai de férias com a cabeça alveada termina‑as na mesma condição.
O jardim, construído no século xvɪɪɪ, oferece um arranjo original de buxos, flores, escadarias monumentais, estátuas de granito e jogos de água. As esculturas rasgam iconografias diversas, a saber, signos do Zodíaco, continentes, estações do ano, dois dos quatro elementos, as virtudes teologais, as virtudes cardeais e uma virtude moral, e ainda os novíssimos do ser humano, Morte, Juízo, Inferno e Paraíso. A caveira da Morte é esclarecedora, mas o que sobra da escultura figurativa do Inferno está longe de desvelar quão excruciante ele deve ser. Em sinal de patriotismo, as estátuas que, na Escadaria dos Reis, representam os reis da dinastia filipina e D. Henrique, o Casto, foram colocadas em nível inferior ao das imagens dos outros monarcas e são mais pequenas do que elas. Depois do passeio, também eu me dediquei à arte da selfie.
No Museu Francisco Tavares Proença Júnior estão patentes ao público, a título permanente, tesouros de arte têxtil, de arte sacra e de arqueologia. Vergado pelo calor de ananases que se fazia sentir extramuros, foquei‑me na pintura religiosa, mormente na Deposição de Cristo no túmulo, óleo sobre madeira, do século xvɪ, porventura obra de Garcia Fernandes, um dos Mestres de Ferreirim. A posição da cabeça de Cristo e o cair do seu braço esquerdo são convincentes.
Almocei no Encosta da Muralha. Posto que, no cardápio, as não vi destrinçadas em secção própria, perguntei por especialidades da casa e da zona. Sugeriram‑me o bacalhau à Muralha, gratinado que leva molho bechamel e é coroado por frutos secos. Desfiaram bem o gadídeo e com apuro entreligaram os ingredientes. A tigelada beirã prolongou os prazeres de acento regional. Bebi Filou, cerveja belga, forte, que caiu do céu em dia de torreira. Nota alta para o cibo, aplausos para quem ali presta serviço.
A Casa da Memória da Presença Judaica em Castelo Branco dá a conhecer a cultura judaica e inclui uma sala dedicada a figuras judias locais, por exemplo, Maria Gomes, que morreu em auto de fé quando tinha 117 anos — algumas fontes referem idade ligeiramente inferior —, e Amato Lusitano, que, para fugir à Inquisição, foi obrigado a sair de Portugal e exerceu medicina em várias cidades europeias. Além de evidenciar virtude informativa, a visita a este espaço museal põe de atalaia todos aqueles que se preocupem com o avanço do tribalismo, dos fanatismos e dos projetos eivados de intolerância. Problemas que ganham acuidade numa época em que um ror de gente parece achar enfadonha a democracia e na qual as redes sociais fazem nascer heresias e fomentam autos da fé.
Os portados quinhentistas de Castelo Branco angariam atenções. Casos há nos quais os respetivos lintéis constituem tramas de pedra com altos‑relevos, baixos‑relevos e indicações acerca do ofício ou do estatuto social de quem ali morou. A tais lavores foi aplicada a designação de «Manuelino pobre» (ou «Manuelino popular»).
O Centro de Cultura Contemporânea, de traço ousado, é a grande empresa de arquitetura hodierna da terra. Data de 2013 e é fruto do trabalho dos arquitetos Josep Lluís Mateo e Carlos Reis de Figueiredo.
Espinhos da interioridade fizeram‑me voltar a Castelo Branco para adquirir um produto indisponível em Oleiros, Idanha‑a‑Nova e Penamacor. Aliei o necessário ao agradável e almocei no Palitão, casa com aparato moderno e bem concebido. Muito saboroso, o acepipe típico da casa — ovos mexidos com farinheira, acompanhados por tomate, orégãos e cebola — alçou as expetativas. Os pratos de carne são o must do restaurante. Pedi bifinhos de porco bísaro, que se revelaram gratos ao paladar. Do bufete de acompanhamentos, escolhi arroz de feijão, migas e salada, tudo preparado a preceito. Terminei com manjar de abade, uma tarte de ovos e miolo de amêndoa cujo gosto se demorava na boca. Bebi um tinto do Douro com final aveludado, o Papa Figos de 2019. A clientela era urbana — nos vários sentidos do adjetivo — e composta de pessoas cujas vidas tinham prumo. Ouvi falar de doutoramentos e de organização das cidades, não dei por dissecções da biografia alheia nem por referências à Luciana Abreu. Retenho o afã de servir com brio e tomo o Palitão como meu restaurante albicastrense favorito.