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Adoro mulheres. Alimento grande interesse pela sua sexualidade, o corpo delas atrai‑me sobremaneira, o imaginário feminino enfeitiça‑me. Devo‑lhes muito: visitas ao empíreo, conversas magníficas, cumplicidades especiais, amparo, o treino do saber emocional. E retribuo‑lhes isso: na vida, premo vários botões, mas nenhum me merece os empenhos que ponho no botão do deleite fêmeo. A gozar um amor que me dá paz, segurança e lascívia, guardo a carne para a minha companheira e renunciei a safras de libertino. Ainda assim, gosto de ver caras bonitas, seios polpudos e proporcionados, curvas voluptuosas, saracoteios sensuais, unhas dos pés pintadas e arranjadas. E quase salivo em face de mamilos cuja forma possa discernir sob a blusa.
Nas férias estivais, cheguei a Riga quatro dias antes da Jūratė. No programa, levava Arte Nova, centro histórico, herança judaica, o edifício da biblioteca nacional, um salto a Ķīpsala, cerveja e boa manja, o exame de modos de viver. E fui‑me conformando com o plano. Sucede que a fartura de letãs lindas e esculturais me desinquietou. As ruas eram passarelas, as lojas cativavam‑me graças às funcionárias e às freguesas, não pelo sortido. De modo gradual, instalou‑se em mim um propósito de sedução inocente, de galantear uma daquelas beldades. Ao mesmo tempo, queria apurar se, fora do laço que mantenho com a Jūratė, permanecia válido o meu cartão de conquistador.
Procrastinei a satisfação de tais anseios e só ao sair do hotel para jantar na véspera da vinda da Jūratė decidi que, se houvesse ensejo, criaria durante o repasto uma atmosfera de cinq-à-sept com uma mulher bonita (certo, bem entendido, de que nunca me desfraldaria em arrojos suplementares, que, aliás, não desejava). Fui ao izakaya The Catch e logo recebi um golpe nas minhas pretensões: por força das reservas, tive de me sentar ao balcão. Cinco minutos depois, reganhei esperanças. Tomou lugar junto a mim uma estupenda obra da natureza (e, quiçá, dos cirurgiões plásticos), russófona, de pele clara, cabelo cor de azeviche, olhos escuros com brilho diamantino, nariz fino e arrebitado. Vestia roupa negra de talhe impecável, usava pulseira e relógio auricolores, bolsa Louis Vuitton e — pormenor que me desagradou — manuseava em simultâneo dois telefones inteligentes. Senti o latejo das veias e olhei para ela diversas vezes em busca de sinal que me permitisse encetar conversa. Ignorou‑me. Quando um pedacito de comida lhe enodoou a roupa, impostei a voz e disse‑lhe que não se preocupasse, que assim iniciava um novo estilo de moda. Nem um sorriso esboçou. Antes da sobremesa, já a indiferença me anestesiara.
Depois da refeição, voltei para o hotel e fiz o que em quaisquer circunstâncias teria feito: cavaquear com a Jūratė. Ela parece ser o meu destino e também a ventura de cada dia.