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Trouxe de um filme de Jacques Tati o título deste texto em que dou notícia da minha visita a Alcafozes para participar nas festas dedicadas a Nossa Senhora do Loreto, padroeira da aviação.
Perto da aldeia, o meu carro foi ultrapassado por alguns espadas e logo tive a certeza de que me esperava solenidade de relevo. Assim sucedeu. À romaria associaram‑se autoridades e clérigos locais, mandatários da Força Aérea Portuguesa, representantes das companhias aéreas e dos aeroclubes, enviados das organizações de pilotos, de tripulantes de cabine e dos controladores de tráfego aéreo. Havia muita gente, zonas de restauração e de venda de doçarias, um palco para as noites de música.
Cheguei antes do começo da missa campal e sentei‑me à sombra de uma árvore, nas traseiras da capela do santuário. De um grupo organizado de rapazes — desconheço o seu papel nas festividades —, trajados de calça preta e camisa branca, chegaram‑me aos ouvidos interrogações que, confesso, me surpreenderam num evento de cariz religioso: «Quem mete o dedo no cu mais rápido?» e «Quem vai às putas mais rápido?». Não consegui decifrar o contexto de tão prosaicas perguntas.
A missa foi animada por um terno de clarins da Força Aérea Portuguesa e por um grupo coral de tripulantes de cabina, conduzido por uma maestrina bem vestida que trejeiteava ao passo que dirigia os cantores. O padre que oficiou deu mostras de sentido de humor e fez uma homilia adequada às circunstâncias. Apreciei a sua bonomia e a sua crença nos humanos: «Cada pessoa é uma verdadeira maravilha.» Preciso de o reencontrar, pode ser que ele insufle a minha fé nos mortais.
Seguiu‑se a procissão, debaixo de sol abrasador. Sobrevoaram‑na pequenas aeronaves, que espalharam pétalas no ar, e também F‑16 da Força Aérea. A imagem de Nossa Senhora do Loreto levava paramento com motivos dourados e, em conjunto com as flores viçosas que a rodeavam, enchia os olhos. Por carregar o Menino Jesus, nela sobressaía a virtude da ternura. Dividi‑me entre a vertente mística e o conjunto espetaculoso transportado em andor. Durante o desfile, nas poses e nos cânticos, vi devoção sincera, porta‑estandartes cheios de garbo e patetice arrogante nos que iam arrumando o cortejo. Enquanto marchavam, os jovens reverenciavam igualmente o telemóvel.
Depois do cortejo, decorreu a cerimónia de remate das festas. O agradecimento franco diluiu‑se num banho de portuguesice saloia, de reverência balofa, de menções ao «senhor general», ao «senhor presidente» e ao «senhor doutor». Um dos notáveis tinha um conflito com a língua portuguesa, fiquei contente quando se calou. Entre as instituições honradas com uma medalha, contava‑se o Casino Lisboa. Não disseram o motivo, talvez tenha oferecido patrocínio financeiro.
Em Alcafozes, as circunstâncias fizeram‑me pecar. Vi pessoas que envergavam a farda da TAP e, no meu íntimo, maldisse essa companhia que tão maus serviços presta aos passageiros. Foi bandeira lusa e motivo de orgulho para o país, hoje envergonha‑o. Uma empresa que maltrata o Porto e os emigrantes. Já não alimento ilusões acerca dela. Para voar da Bélgica para Portugal e vice‑versa, esforçava‑me por lhe dar prioridade, agora nem sequer conjeturo entrar nos seus aviões. Neste mundo em que vivo, o grupo profissional que mais detesto é o dos pilotos da TAP, especialistas da paralisação abjeta.
Termino com uma confissão. Em eleições legislativas, o meu voto oscila entre o PS e o PSD. Antes do sufrágio de 2022, andava muito hesitante e, por mais que ponderasse, não me decidia. Escorando‑me no que esperava desses partidos em caso de vitória, fui buscar o critério de decisão ao possível destino da companhia. A TAP é um sorvedouro de dinheiro dos contribuintes, creio que deveria ser privatizada e, por esse motivo, votei no PSD, que probabilizaria tal sorte. Lamentavelmente, por causa de uma embrulhada promovida pelo próprio PSD, a minha escolha não contou e, quando as eleições relativas ao círculo da Europa foram repetidas, não pude votar.