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No Palácio do Raio



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            Esplanada da pastelaria Frigideiras do Cantinho. Perto de mim, um casal e uma terceira pessoa, uma mulher. No que toca aos membros da parelha, a dama era discreta no conversar e no trajar, o homem falava bastante e chamava a atenção pela aparência e pelo odor a perfume de chulo. Tinha pouco cabelo, cuidadosamente penteado, e a sua cara brilhava, não por efeito de limpeza do rosto ou da aplicação de bom cosmético, antes do emprego de loção rasca. Vestia calças e casaco de ganga, usava bolsa a tiracolo, não era propriamente fait à peindre. A outra mulher era de cepa repugnante. Dizia mal de tudo e de todos, debitava chavões bacocos, repetia «prontos» como interjeição, terminou várias frases com «e não sei quê», associava o trejeito à exclamação. Fiquei a saber que o sótão da sua casa abarrotava de tarecos e que, nos jornais, lia primeiro a necrologia. No intuito de ir «ver se a minha neta arrumou o que desarrumou», várias vezes fez menção de se ir embora, mas sempre ali se quedava, que isto de dar à língua é coisa que a satisfazia. Um asco. Uma áspide. Ala, que é Cardoso! Deixei a esplanada, queria entreter o espírito com obra de monta e de boa linha, o Palácio do Raio.

            O Palácio do Raio, igualmente conhecido por Casa do Mexicano, é o mais formoso exemplar da arquitetura civil de antanho que vi em Braga. Segue estilo barroco joanino, exala pátina, é distinto.

            Construído em meados do século xvɪɪɪ por encomenda de João Duarte de Faria, um tendeiro rico, levou traço de André Soares. Já no século xɪx, foi vendido a Miguel José Raio, um braguês que fez fortuna no Brasil, e daí a designação.

            A fronte, revestida de azulejos em que sobressai o azul‑escuro, tem portal conspícuo e, acima dele, um balcão guarnecido de balaústres e engalanado com duas esculturas. No andar nobre, as varandas são de ferro batido e trabalhos de granito lavrado servem de moldura às janelas. A balaustrada que coroa a cornija é dimidiada pela envoltura da pedra de armas e ritmada por urnas com fogaréus; ânforas decoram as suas extremidades. O tapiço de estampilha azul é contraponto feliz da matéria lítica do frontispício.

            No interior da casa, tampouco falta cabedal a louvar. Limitando‑me à escadaria, menciono os painéis azulejares com cenas de caça e cenas galantes, e saliento O turco, escultura de André Soares que figura personagem de formas generosas e boleadas e que vale pela sua carga visual, não tanto por ser bonita.

            No Palácio do Raio funciona o Centro Interpretativo das Memórias da Misericórdia de Braga. O percurso da mostra dá a ver a intervenção da Misericórdia de Braga no sentido de curar almas e corpos. O meu olhar, amador e diletante, fixou‑se nos ex‑votos de óleo sobre madeira e no grupo escultórico que reproduz a visitação de Maria à sua prima Isabel.

            Enquanto manifestação de religiosidade popular, de agradecimento e de fé nos poderes de intercessão, sempre as tábuas votivas me enternecem. E aqui, dum ex‑voto ressumava caso incomum e carregado de dramatismo: «Milagres q. fez o SENHOR dos despresos a [Manuel Joaquim] Machado, o qual, tendo‑se‑lhe atravessado na garganta hum osso, e apegando‑se com elle sua May, ella [mesma] lho tirou com [admiração] dos assistentes, assim como tendo estado a morrer dehuma molestia de peito, recobrou saude p. intersecao deste SENHOR.»

            O conjunto de esculturas, de barro cozido e cores esmaecidas, será empresa de Gonçalo Rodrigues, artista lisboeta. Segundo Vítor Serrão, nas peças que compõem o conjunto (e representam a Virgem, Santa Isabel, duas personagens masculinas e dois anjos acoplados em esferas), tudo aponta para o seu estilo. O referido professor exemplifica com «o lançamento dos pregueados dos tecidos, as posturas torsas e anticlássicas, não isentas de atarracamentos e de hesitações, as cabeças de olhar amendoado com pessoalismos de modelação»[1].

            À facécia de Camilo Castelo Branco não escaparam os que, arroubados com o progresso que vertia de muitas bicas (lembre‑se que o Ramal de Braga data de 1875), na cidade divisaram uma «segunda Paris». Fundeado em méritos locais e no que cada terra tem de bom, devo dizer que detesto qualificações dessa laia. E acrescento que, em virtude do seu desenho, recheio e contributo para a conformação arquitetónica da urbe ao gosto do burguês, o Palácio do Raio não tiraria lustre à capital da França. Aliás, não desmereceria de nenhuma capital das coisas da cultura e do espírito.

[1] SERRÃO, Vítor, «O escultor maneirista Gonçalo Rodrigues e a sua actividade no Norte de Portugal», Revista MUSEU, IV Série, n.o 7, 1998, p. 155 [artigo consultado em linha].

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Paulo Pego
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